quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Loci

Oxum me pôs no colo e perguntou baixinho: 
- meu bacuri, onde perdeste o brilho dos seus olhos? 
Eu, criança de nata rebeldia, respondi em prantos:
- uma mulher bonita roubou e levou lá para as terras planas, onde o mar não alcança.
Mãe Oxum, indignada, continuou:
- Mas como se pode roubar o brilho dos olhos de alguém !?
- Do mesmo jeito que um dia roubei um pedaço do ventre dela e fiz, em silêncio, meu eterno aconchego - respondi.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Imperativo

Deixe meu vento soprar forte sobre suas águas. Entregue-se como se fosse a última vez. Viva, compreenda e festeje minhas tempestades. Deixe eu beber de sua água e nela morrer afogado. Conte-me sempre a verdade e minta somente ao dizer que me odeia. Me faça leve brisa pela manhã e bruto vendaval quando nossas línguas e pernas se cruzarem na cama. Deixe eu mandar. Sinta-se deliciosamente obediente. Me ajude a vencer o passado e mostre-me um novo futuro. Compartilhe esse futuro comigo, só comigo. Seja minha única razão de vida e meu desejo secreto de morte: uma morte lenta, suave e molhada, enquanto destila no meu sangue o veneno quente e fatal de mil escorpiões.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Amuado.


Reservo meu dia para reflexões e dúvidas. Sou "viver" no gerúndio. Afogando-me em incoerências e desculpas esfarrapadas. Apontando inquieto as contradições e me irritando quando me subestimam. Reservo o dia para ouvir o silêncio, o meu silêncio. Nada mais.

domingo, 3 de outubro de 2010

Guia explicativo para idiotas e enganados.












Enganar é uma arte. É o desafio próprio de ludibriar alguém e sorrir intimamente vitorioso. Enganar é simplesmente enganar, com a velha desculpa de ter omitido com medo da dor ou ciúme que poderia causar. Enganar não é lecionado como matéria obrigatória nas escolas de todo o mundo, contudo apresenta altos índices de frequentadores e, pasmem ou não, de alunos aprovados com notas de dar inveja a qualquer mortal com o QI acima de duzentos. Enganar é sair dizendo que vai ao trabalho e desviar a rota, é ligar quando não estamos em casa, é escolher o desejo ao sentimento. Fracos defendem que enganar é hormonal, é evolutivo, é do instinto da sobrevivência. Outros afirmam que é saborear o proibido, é se aproximar de alguém próximo a você para enganar em conjunto: demodê é enganar na solidão; é preciso união, é preciso sorrir do enganado e contar suas intimidades com o objetivo de minimizá-lo, de descobrir detalhes não conhecidos. Enganar tem sabor de morango com sorvete de creme, tem música tema e mensagens românticas que serão negadas depois de descobertas. Enganar tem idade alvo e carência como tola e inacreditável justificativa. Enganar não exclui o ato de dormir juntos como se nada estivesse acontecendo, não exclui beijos matinais ou sexos casuais. Enganar deve ser genético, sem necessidade de duplo dominante para macular a fenotipagem. Enganar é nomear um longo passado em apenas três segundos e repetí-lo várias vezes para uma absorção osmótica: é utilizar desse frívolo argumento para se safar das consequências e empurrar mil sentimentos no meio da lavagem de roupa suja. Enganar é publicar textos com duplo sentindo e fingir ignorar as conotações. Enganar é duvidar do infalível método chinês de diagnóstico: TANAKARA !! Enganar é negar fatos óbvios e esboçar desentendimento ou esquecimento quando perguntado sobre os mesmos fatos óbvios. Enganar é doloroso para os algozes e para as vítimas. Enganar é tentar abafar no passado algo que provavelmente é ato recorrente e culpar a fraqueza da carne. Enganar é Rei tendo todos nós como escravos; escravos de um futuro sombrio, sem escolha e sem rebelião.

sábado, 2 de outubro de 2010

Burning down the past.

Uma única coisa me amedronta e me maltrata: EU mesmo.

Pluvial

Hoje sou pluvial. Tenho a constrição nata da distância e o merejar típico da insegurança. O ciclo da água é experimento recorrente ante o espelho. Sim, hoje sou gotejadamente pluvial, regando meu velho chão de madeira com água e sal.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Deux

Pintei minha vida de azul, deixei fluir velhos temas e acreditei um pouco mais no destino. Botei Cake na vitrola, abri a janela virtual e vi o aro prata num dos dedos. Jantei pouco feito sabiá, cantei muito pra lembrar que pintar a vida só de azul não vale: é preciso misturar com o verde.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Olho mágico

Hoje espero quem não cruzará minha porta por algum tempo.

Brainstorm

Respeito as considerações guardadas em seu cérebro e retina. Meu conforto é saber que amanhã será um novo dia. Não mudarei de uma hora para outra; e serei feliz demais nas horas que ainda permanecerei nesse vil submundo interior. Admira-me sua repentina lucidez e pronta definição de um enlouquecido passado. Talvez eu realmente devesse ter feito como ouvi inúmeras vezes: “por que você não me mandou embora?" Deve-se ao meu singelo temperamento de uma puérpera que vê sua cria sendo violentamente abatida, acredito eu. Num bordejo íntimo penso que a vida é esse joguinho constante e o soprar forte num móbile com longos barbantes e sentimentos intensos dependurados. Erraram meu signo, confesso: a tríade de fogo cairia melhor em mim. Mas Deus é inteligente: não se entrega labaredas a piromaníacos ou lança-as em auto-inflamáveis. Sou categoricamente voraz, intenso, mutável...o erro grave estampado na cara com a coragem mais escrota em assumi-lo. Vivo dos perdões negados e do delicioso riso em ignorá-los. Tenho como objetivo a soma, ainda que com números negativos. Instiga-me o suor inespecífico e os gemidos perdidos na madrugada. A monotonia é minha vizinha, mas não tenho bom relacionamento com ela. Reparo os detalhes e uso-os, descaradamente uso-os, afinal é sempre bom lembrar que três gotas de baunilha suavizam o sabor do bolo de chocolate assim como uma única laranja estraga o suco inteiro. Sou injusto às vezes, daí minha aversão a carreiras legislativas. Defendo que atitudes se igualam independente de grau, quantidade e/ou qualidade: qual a diferença do batedor de carteira da periferia para o político corrupto mesmo!!?? Tento me acostumar com os segredos; eles existirão e serão sempre alvo de curiosidade e do prazer da plenitude. Sou um eterno esperançoso, acredito que serei melhor em anos e as pessoas comigo. Sou cuidadoso com quem amo, mas tenho o idiota hábito de querer ser pai, mãe e outros tantos entes familiares (Acho que é carência). Minto muito menos que antes e me iludo em achar que o mundo faz o mesmo. Repito, sou um eterno esperançoso e acredito que as pessoas são SIM substituíveis, os sentimentos NÃO. Sou amante da subversão e defensor dos bons modos. Drogo-me com adrenalina e sou traficante da discórdia. Vivo ruminando o passado; dizem que uma boa mastigação garante digestão de qualidade e longevidade. Tento entender o mal explicado e o não-dito (sempre há um não-dito, no fundo há!) misturando Freud e Sherlock. Decerto me fizeram fluido e volátil. Tenho o peso do ar condensado e a força da expansão do mesmo. Hoje carrego mais quatro pesados adjetivos: orgulhoso, possessivo, violentamente ciumento e machista. Nada não, como disse, amanhã será um novo dia, e ainda tenho um mundo inteiro para absorver e conquistar. 

Hemi...

"E tinha que ser em dobro?" Se existe uma defesa a favor da economia e do não desperdício é de notória importância e relevante resposta esse meu questionamento. Me viro com uma só, um só, só um. Me resta sempre a dúvida e a vontade de enxugar esse corpo encharcado de pensamentos, memórias e desejos. Uma boca, um nariz, um coração, um pênis, um fígado (objeto em escassez na bebedeira desses dias) eu até entendo. Mas me diz qual vantagem de ter o resto todo em dobro? Desperdício, minha gente, e angústia para alguns. Não reinventem essa velha moda tola de companhia: duplo rim, dois pulmões, qual é mesmo a serventia? Sinceramente estou num ponto que pouco entendo e muito detesto. "Qual dos braços mais me serve?", eis a dúvida do ambidestro.